terça-feira, 15 de setembro de 2009


Bravo! entrevista Santão

Na edição de setembro da revista Bravo!, o jornalista Armando Antenore entrevistou Hugo Possolo, ou melhor, entrevistou Sua Santidade o Papa, personagem de Hugo na peça O Papa e a Bruxa.

Segue essa conversa inusitada logo abaixo.


MÁSCARA - O Papa

O Sumo Pontífice, personagem da peça "O Papa e a Bruxa", incorpora no comediante Hugo Possolo e promete: "Vou tirar padres e freiras do armário"


Hugo Possolo com a máscara do Beatíssimo Padre, seu personagem na peça O Papa e a Bruxa. “Magoei”


BRAVO!: Santidade, gostaria de…

Papa: Por favor, prefiro que me chame de Santão. Sumo Pontífice, Santidade, Beatíssimo Padre soam muito formais. Cansei de tanta caretice. Quero algo mais coloquial: Santão, Big Brother, Chefia. Será a primeira de inúmeras mudanças que realizarei em breve.

Mudanças?
Sim. Minha rotina no Vaticano anda tediosa. Pai-nosso pra cá, ave-maria pra lá, um saco! Por isso, decidi movimentar a área, tocar fogo no barraco. Tomarei atitudes que nenhum dos meus antecessores ousou tomar. Papas, afinal, só dispõem de uma gestão. Não existe reeleição na Santa Sé. Ou neguinho faz agora, ou dançou.

Poderia nos adiantar umas mudanças?
Sem dúvida. Vou anunciá-las com exclusividade antes que meus assessores as divulguem pelo Twitter. Para início de conversa, mexerei na decoração do palácio onde moro. É de um mau gosto terrível! Ouro em excesso. Pretendo me livrar daquelas tralhas. Venderei tudo e doarei a grana. Clean! O Vaticano deve se tornar o império do clean: paredes brancas e nuas, janelas sem cortinas, pisos sóbrios. Nada de mármore no chão! Também penso em alterar os meus trajes. Adotarei o modelito simples dos franciscanos - um hábito leve sobre o corpo, um cobertorzinho Parahyba nas costas, sandálias de couro. Ou chinelos, por que não? Havaianas, talvez. Quem sabe um Rider de camelô... Desejo resgatar as origens humildes da Igreja. O Papa finalmente será pop, como preconizou um roqueiro do Brasil nos anos 90. Qual o nome dele mesmo?

Humberto Gessinger, da banda Engenheiros do Hawaii.
Exato. Um rapaz loiro, de olhos claros, barba, cabelão. Ele não se parece com Jesus Cristo à toa. O Humberto é um visionário!

Que outros tabus do catolicismo o Santão planeja rever?
O veto à camisinha e demais contraceptivos. Chegou a hora de a Igreja reconhecer que o sexo não serve apenas para multiplicar o rebanho de Deus. Temos de valorizar o prazer. Se o sexo buscasse somente a reprodução, as madrugadas de sábado não dariam o menor ibope. Na Última Ceia, diante dos apóstolos, Jesus pediu: "Bebam o vinho, comam a carne". Portanto... Falando em vinho, cogito liberar o uso de cerveja sem álcool pelos sacerdotes durante a Eucaristia. O Vaticano não aguenta mais pagar multas de bispos e cardeais que caem nas garras do bafômetro depois da missa.

E o celibato obrigatório dos padres?
Vou transformá-lo em optativo. Casando, os sacerdotes compreenderão melhor os perrengues dos fiéis. Imagine: o pároco, exausto, aterrissa no quarto-e-sala à noite, beija a testa da patroa e logo escuta um "fofo, precisamos discutir o cancelamento do Speedy". É ou não é um tremendo choque de realidade?

Quer dizer que o presidente Fernando Lugo, do Paraguai, estava na vanguarda? Ele transou com uma porção de mulheres quando ainda exibia o status de bispo.
Encaro o companheiro Lugo como um revolucionário e desaprovo enfaticamente todas as piadinhas que disseminaram contra o pobre homem. Bispo Papão, Lugo Mau, pairaguaio... Quanta infâmia! O presidente só errou em engravidar aquelas senhoras. Não carecia. Já existem pestinhas suficientes na Terra.

O Santão defenderá o controle da natalidade?
Defenderei, e por causa de um pesadelo recente. Sonhei que ONGs do Terceiro Mundo trouxeram 100 mil crianças de rua à praça de São Pedro. Quando surgi na sacada da basílica para abençoar o povo, os ongueiros levantaram cartazes que proclamavam: "O Sumo Pontífice não condena o aborto, a pílula e os preservativos? Então fique com os moleques!". Foi horrível. Magoei.

A Santa Sé vai tolerar o homossexualismo dentro da Igreja?
Lógico! Minha meta é tirar padres e freiras do armário. Incentivarei o comércio de terços cor-de-rosa, permitirei a bandeira do arco-íris nos altares e estimularei a gravação de músicas religiosas por cantores estratégicos: os meninos do Village People, a Gloria Gaynor, a Cher, o grupo Gengis Khan e a Ana Carolina.

Como lidará com o problema dos padres pedófilos?
Evidentemente não avalizarei desvios do gênero. No entanto, sempre que possível, receberei baixinhos em meus domínios e os levarei para um rolê de papamóvel. Se você olhar direito, o Vaticano é um imenso parque temático.

Não teme as reações adversas que tais mudanças despertarão? De que maneira enfrentará os conservadores?
Com ioga, meditação, florais de Bach, respiração-cachorrinho e um pouco de tai chi chuan. Evitarei bate-bocas. Ignorarei a Opus Dei. Tamparei os ouvidos para as beatas. Minha onda agora é zen. Papinha Paz e Amor! Os descontentes que reclamem com o bispo - o outro, o da concorrência: Lair, Edir, Samir, nunca lembro o nome do sujeito. Se resolverem virar a casaca e trocar de time, beleza. Dou-lhes apenas um aviso: lá, na concorrência, os devotos têm de enfiar a mão no bolso. Aqui ganham tudo de graça: a hóstia, a água benta, o folhetinho da missa.

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