terça-feira, 28 de abril de 2009

Reflexões

Entrevista sobre Teatro de Rua

Termina hoje, em Porto Alegre, o Seminário sobre Teatro de Rua. Faz parte do I Festival de Teatro de Rua de Porto Alegre que o grupo Falos & Stercus organizou. Ontem e hoje, estão acontecendo vários debates, com destaque para algumas presenças: Amir Haddad (Tá na Rua); Paulo Flores (Oi Nóis Aqui Traveiz); Hamiltom Leite (Oigalê); André Carreira (diretor teatral e professor da UDESC, de Florianópolis) e Narciso Telles (Ator, diretor, pesquisador e professor da Universidade Federal de Uberlândia).

No domingo, dia 26, saiu uma entrevista do parlapatão Hugo Possolo, no Correio do Povo, feita pela jornalista Vera Pinto. Abaixo segue a íntegra:

Correio - Qual a maior dificuldade que o teatro de rua enfrenta hoje? Seria a falta de subsídios a maior delas?

Hugo Possolo - O teatro de rua no Brasil se expandiu de duas décadas para cá. Isso não significa que tudo que surge tem qualidade para se firmar, mas a quantidade é importante para que a arte encontre espaços de diálogos públicos. Esse é o valor simbólico mais relevante que o teatro de rua tem em relação ao teatro de espaço fechado, pois é voltado ao debate público e sua função artística é potencialmente maior. E claro que necessita de recursos, subsídios, enfim, grana que viabilize um tipo de arte que está voltada ao mercado. Acontece que governantes, à esquerda e à direita, acima e abaixo, tem uma visão ocidental, estúpida e pragmática, e não conseguem enxergar que a cultura é tão prioritária quanto a saúde e a educação.

Correio - Levando em conta as dificuldades para sobrevivência de um grupo, por motivos que vão dos interpessoais até de infra-estrutura mesmo, como é manter um grupo como os Parlapatões por tanto tempo, afinal já são 18 anos?

Possolo - Quem escolhe esse ofício, sabe que ele tem um tom meio missionário, de engajamento e que vai abrir mão de muita coisa. Alguns tombam pelo caminho. Em 18 anos, nos Parlapatões, foi assim. Abdicamos de grana, vida pessoal, família e um tanto de coisas que não cabem no jornal. Mas, por outro lado, conquistamos o que mais queríamos: uma forte e profunda relação com o público. Manter um grupo é lutar diariamente acreditando que vale a pena. E vale.

Correio - A respeito do tema da tua palestra "O não-lugar do teatro de rua", o que você quer dizer com isto?

Possolo - O não-lugar é a inadequação da arte ao mundo cada vez mais cínico que vivemos. O termo vem de Thomas Morus, o autor de Utopia. Em latim o u faz a negativa e topus indica o lugar, no caso, pela negativa, o não-lugar, inatingível, que pode ser também o mais destacado ou alto. Fazer teatro de rua é uma utopia, querer lugar de destaque ao invisível, querer o sensível ao bruto, querer mudar o mundo e acreditar que ainda é possível.

Correio - Como foi dirigir a Escola Nacional de Circo? A impressão que tenho aqui é que o circo está acabando: já não recebemos atrações do resto do país, e sim muito eventualmente o Circo Imperial da China e pela segunda vez, em 2010, o Cirque du Soleil. Você pode fazer um panorama disto no resto do país?

Possolo - Fui Coordenador Nacional de Circo, na Funarte, por dois anos (2004 e 2005). Cheguei a dirigir interinamente a Escola Nacional de Circo, nesse período, enquanto procurava alguém para substituir o antigo diretor. O circo sempre foi abandonado pelos governos, tanto é que, antes de minha chegada, quem respondia indiretamente pelo circo era o diretor da Escola Nacional, uma enorme distorção de funções. O Estado brasileiro é ultrapassado, nossos políticos são tacanhos e cabe a nós, artistas de circo e de teatro, lutar para não deixar que as coisas se acomodem. Temos conseguido algumas coisas. É vergonhoso que o Ministério da Cultura tenha apoiado, via renúncia fiscal, a primeira vinda do Cirque du Soleil. Eu devo deixar claro que não sou um xenófobo contra a vinda deles, ao contrário, eles ajudaram a dar a maior visibilidade à atividade. Porém, eu quis sair do Ministério quando vi que, no atual governo, se priorizam os mais favorecidos em detrimento daqueles que produzem e batalham pelas artes no país. Uma traição ao discurso que elegeu o Lula.

Correio - Vocês já tiveram relações violentas com a interatividade? Qual foi a mais inusitada que vocês presenciaram? Qual o limite a ser dado?

Possolo - Teatro é interativo desde a Grécia antiga, na origem dos cantos ditirâmbicos. Quem inventou esse papo de teatro afastado, de quarta parede, foi o romantismo burguês. O teatro é crítico e participativo, é voltado ao diálogo. Isso quer dizer que é arte e não produto de consumo como querem alguns. Um produto você pode rejeitar exigindo seus direitos de consumidor. Já a obra de arte é um diálogo, onde nem sempre há conforto e concordância. Por isso, o artista tem que ser sensível e sedutor para aproximar seu interlocutor para a conversa franca, que pode até ser incomoda. Talvez por isso, nunca tive reações violentas, nem agressivas por parte da platéia, pois queremos, sinceramente, brincar. E quando um não quer, dois não brincam.

Correio - Como alcançar o tempo certo do humor, considerando que é fácil cair no ridículo através do riso?

Possolo - Não sei se entendi bem a pergunta. O tempo do humor é uma arquitetura, um estudo matemático muito similar ao da música, construído com uma falsa tensão que, subitamente, é retirada, provocando o relaxamento do público, o que se traduz em risadas. Isso é bem diferente de cair no ridículo, ou ser ridículo. Quem quer fazer rir precisa se aceitar como ridículo, coisa que, aliás, todo ser humano é. Ridículo.

Correio - Nos Parlapatões, como funciona a escolha dos temas?

Possolo - Escolhemos o que nos inquieta em comum. A situação social e política, em geral, são o ponto de partida que se afunila em assuntos mais específicos, que possam tratar daquilo que vemos do mundo, das pessoas ao nosso redor, do que pensamos e sentimos sobre as contradições humanas.

Correio - Como é o processo de montagem de um espetáculo?

Possolo - Varia muito. Escolhemos a linguagem conforme o que queremos dizer. Às vezes, partimos de textos prontos; outras, de um processo de elaboração com um dramaturgo junto aos ensaios. O mais importante no processo é dar voz aos pensamentos do elenco e que ele se aproprie de cada sentido da obra teatral que se pretende construir. Além disso, é fundamental pensar no público sempre, se colocar no lugar do público para estabelecer todas as possibilidades de jogo com ele.
Correio - Faz tempo que os Parlapatões não vêm a Porto Alegre. Quando os gaúchos poderão vê-los novamente? A última vez que assisti uma peça de vocês foi sete anos atrás, "Sardanapalo".

Possolo - A maioria das vezes que fomos ao Rio Grande do Sul era por meio de convites, em geral de Festivais. As duas únicas vezes que tivemos patrocínio para turnês, incluímos Porto Alegre em nosso roteiro. Esperemos retornar com mais constância, pois temos uma identidade enorme com os gaúchos (um dos fundadores do grupo, Jairo Mattos, é gaúcho) e também, porque sempre tivemos uma ótima receptividade. Alô, Porto Alegre em Cena, continuamos vivos e na luta!!!

2 comentários:

Grupo Mototóti desde Set/2007 disse...

Oi, Hugo,
estamos colocando o blog dos parlapatões como nossos amigos do nosso (Grupo Mototóti). Vcs serão o primeiro grupo de teatro a serem nossos amigos... hehehehehehehehehe!!!
Abraços e assim que formosd a sampa vamos visitá-los!!

Abraços e muita merda

Carlos Alexandre

Hugo Possolo disse...

Valeu, Carlos!
Vamos incluir o link de vocês por aqui também.
Abraços a todos.